Estados Unidos – Educação Superior

  • Projeto Inicial: Estados Unidos: educação superior como política de desenvolvimento –  papel dos community colleges. (VER).  Apoio FAPESP – dezembro/2011 a novembro/2013. English version

LIVRO: Educação Superior nos Estados Unidos – História e Estrutura, Editora Unesp. SP, 2015. Para ver o sumário, clique AQUI.

TEXTOS PRELIMINARES

  • Educação superior norte-americana (I) –  a construção do sistema (1800-1980) Cadernos Cedec nº 111 (Edição Especial Cedec/INCT-Ineu). Dezembro de 2012  – TEXTO INTEGRAL – Clique aqui
  • Community Colleges – a massificação do ensino superior nos Estados
    Unidos. Parte I – Junior College, uma invenção americana (1901-1945). Clique aqui
  • A Educação Superior Norte-Americana na Virada do Milênio – características e tendências. Clique aqui.
  • Community Colleges – a massificação do ensino superior nos Estados Unidos. Parte III – Dilemas Contemporâneos (1985-2010). Clique aqui.

ARTIGOS

Paradoxos do ensino superior norte-americano: uma nota de pesquisar. Ver

Ensino superior de curta duração: a experiência norte-americana dos community colleges. Ver http://www.scielo.br/pdf/cp/v44n152/11.pdf

Short-term higher education: the United States’ Community Colleges’ experience. Cadernos de Pesquisa. , v.44, p.451 – 464, 2014. http://www.scielo.br/pdf/cp/v44n152/en_11.pdf

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6 respostas em “Estados Unidos – Educação Superior

  1. Prezado Prof Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes,

    Li reportagem da Fapesp a respeito de sua pesquisa e notei alguns pontos que podem conduzir a interpretações imprecisas.

    Um deles é a menção ao custo de Harvard como exemplo de elitização. Pelo contrário, são justamente as universidades mais endinheiradas como Harvard que admitem estudantes sem considerar a capacidade financeira – Yale, Harvard, e outras escolas ricas oferecem bolsas a todos os alunos admitidos que não tenham possibilidade de arcar com os custos do estudo.

    Outro ponto é a classificação entre escolas privadas, escolas públicas, e escolas com fins lucrativos. Embora essa categorizarão seja comum no sistema de ensino brasileiro, agrupar universidades estaduais e community colleges dá uma impressão incorreta do sistema norte-americano. As grandes universidades estaduais são muito mais semelhantes às universidades privadas do que aos community colleges.

    E existem também os liberal arts colleges, que se dedicam mais ao ensino que à pesquisa, mais uma vez destoando da classificação apresentada. Estas instituições oferecem cursos de 4 anos e uma educação muito semelhantes às universidades de pesquisa, e incluem diversas escolas que só podem ser consideradas de elite, por exemplo Swarthmore College ou Amherst College. Tenho a impressão que na estatística citada no artigo, segundo a qual os community colleges, com cursos de 2 anos, recebem mais da metade dos calouros, os 4 year colleges não associados a universidades foram incluídos com os community colleges de 2 anos, o que é um erro.

    Recomendo a atenção a esses pontos que podem confundir o leitor, prejudicando o entendimento do estudo e diminuindo seu impacto.

    Sinceramente,

    F Pait
    pait@usp.br

    • Obrigado pelos seus comentários. Concorde ou não com eles (e não concordo, em geral), eles me indicam a necessidade de dizer de modo mais claro e incisivo algumas coisas. É o que faço no livro que estou terminando, sobre esse tema.
      Mas, vamos aos seus questionamentos. Vou escrever de modo bem informal e talvez seja repetitivo, sou assim quando insisto em algum argumento que acho importante. E certamente o texto vai ter defeitos formais. Escrevo aqui de modo bem informal e costumo desprezar alguns acentos e cedilhas, quando digito rapidamente. Este texto está cheio desses ‘pastéis’ gráficos.
      1. Começo pela sua observação que acho correta. De fato, o que está na abertura da matéria tem uma imprecisão. Atualmente os CC não respondem por mais de 50% dos calouros. Culpa minha, por que não prestei atenção nela, apenas no corpo do texto, e não avisei o jornalista. Na conversa com o repórter da Fapesp devo ter comentado o enorme crescimento dos calouros dos CC e talvez tenha dito algo perto desse número, porque contei a história desse crescimento. Essa participação majoritária dos CCs foi real durante algum tempo, mas mudou no começo dos anos 1990. E há algumas razões prováveis para isso. Assim como há razões para pensar que tal alteração tem que ser relativizada. No livro que entreguei à editora os dados são mais detalhados, indicando algo assim: “É importante olhar para esses dados e, ao mesmo tempo, lembrar a crescente participação dos community colleges no conjunto das matriculas de graduação: ela passa de 24%, em 1970, para mais de 40%, em 1980. E a velocidade parecia crescer: se focalizamos apenas os calouros (os ingressantes), o percentual ainda é maior, mais de 50% em 1980. O balanço de N. Grubb é incisivo: quase a metade dos estudantes ingressam no ensino pós-secundário através de community colleges” [Grubb, 1999, p. 3]. Como disse, o balanço era esse para 1980 e continuou sendo por mais tempo. Só no começo dos anos 1990 isso mudou. Talvez para isso tenha contribuído o fato de alguns CCs terem tido um upgrade, virando 4-year institutions. Alias, é preciso olhar com cuidado a tabela da publicação estatística do Depto. de Educação, o Digest, essa fonte que você utiliza (e eu também). A nota metodológica é importante porque diz como os dados foram coletados e o que podem dizer e o que não podem dizer. Por exemplo, o sistema do de Depto. de Educação tem critérios próprios para classificar as instituições como 4-year ou 2-year. Criterio diferente da classificação Carnegie, por exemplo. O IPEDS classifica como 4-year algumas instituições que a Carnegie classifica como 2-year. São instituições que oferecem alguns cursos de 4 anos, mas tem majoritariamente cursos e alunos no nível de associate degree (junior college, dois anos). Também há uma ambiguidade, observada nas notas metodológicas do Digest – estudantes dos campus especializados de dois (two-year branches) de instituições de 4 anos são contados como dados de 4-year institutions. Para alguns estados isso faz grande diferença, porque eles optaram por não implementar community colleges – as universidades estaduais criaram unidades especiais, fora do campus principal, em que são oferecidos cursos de dois anos. São os ‘junior colleges’ dessas universidades. Mas os estudantes são computados como estudantes da universidade. De qualquer modo, o que pretendo dizer é que esse ramo do ensino superior, o dos CCs, é o grande responsável pela massificação e pelo que se pode chamar de “democratização do acesso“ para baixo. E que perto da metade dos estudantes, ainda hoje, entra no sistema pela a “open door” do CC.

      2. Com relação à elitização das universidades privadas como Harvard, mantenho essa afirmação, que aliás não é minha, é de volumosa literatura norte-americana e baseada em renda das famílias dos estudantes, quantos pagam as mensalidades ‘cheias’, etc. Aliás, não digo nada de novo. A literatura especializada americana já mostra isso faz tempo. Até um antigo e famoso reitor de Harvard, Connan, disse isso. E isso, para os dirigentes dessas universidades, nunca foi negativo, sempre foi alardeado como um princípio de distinção.
      Há uma frase no seu comentário que revela para onde a coisa vai. A sentença é verdadeira, mas acho que você não se deu conta do que ela implica: essas escolas, diz você, “oferecem bolsas a todos os alunos admitidos que não tenham possibilidade de arcar com os custos do estudo.” Isto é, selecionam alguns e a eles destinam bolsas. Sim, a questão é: quantos estudantes desse tipo são ‘admitidos? Admito meia dúzia de estudantes pobres e a eles dou bolsas. Dei bolsa a “todos”. Ou seja, a instituição admite, dentre aqueles que não podem pagar, um número que pode incluir na turma, porque são alunos pobres mas promissores, porque são atletas que podem vitaminar seus times e assim por diante. Ok, mas para por ai – determina uma cota para admissões gratuitas ou quase gratuitas. Esse “todos os alunos” dá uma impressão errada da coisa, dá impressão de que você é pobre, inscreve-se em Harvard, tem bons resultados nos testes padronizados, melhores do que os que podem pagar, e está dentro. Náo está. A forma de admissão é uma obra de arte nessas escolas. Há alguns estudos, que menciono em meu trabalho, que mostram esses recursos – o livro de Daniel Goldin, jornalista do Wall Street Journal, o de Jerome Karabel, que historia esse fenômeno nas três princesas do nordeste (Harvard, Yale, Princeton). A fantasia ‘filantrópica’ das endinheiradas é apenas isso, uma fantasia. Diga-se de passagem: bolsa para estudante carente nos Estados Unidos não vem de filantropia privada, não, outra fantasia difundida aqui entre nós. As bolsas vem de programas públicos, federais, sobretudo. Os empréstimos subsidiados também. Bolsa institucional é elemento menor no conjunto do sistema. A massificação e democratização do acesso não são patrocinadas ou subsidiadas pelas escolhas “endinheiradas”. São basicamente investimento federal e estadual (as dotações orçamentárias, sobretudo). Foram as bolsas do GI Bill, o programa dos veteranos, que massificaram o sistema no pós-guerra. E vários outros programas federais se sucederam. Aliás, aproveito para ‘corrigir’ um dado da matéria, que subestimei e que reforça meu argumento. O custo. A anuidade de Harvard custa mais do que esses 40 mil dólares que mencionei. As instituições atualizam esse dado constantemente nos seus sites – dados das anuidades e do custo previsto para manutenção do estudante. As revistas de ranking publicam suas listas. Há sites especializados em fazer esses cálculos, comparando o custo ‘cheio’ e o custo verdadeiro das escolas, o ‘preço de lista’ e o ‘preço corrente’. As comparações de custos, escola por escola, mostram que não tem nada a ver equiparar instituições publicas com privadas, nesse quesito. A Universidade da Califórnia unidade Berkely – tem uma “ in state tuition” 12,8 mil. Stanford cobra 42 mil. Harvard cobra 40 mil. A unidade Boston da Universidade de Massachusetts cobra 12 mil. Uma diferença e tanto, mesmo quando você olha para as anuidades efetivamente pagas, o valor depois de descontada as ajudas, descontos e bolsas. Entre as universidades privadas, Harvard é tida como uma das que tem o melhor programa de ajuda financeira. Lembro-me de ter lido um levantamento da universidade em que computava uns 4 mil estudantes recebiam algum tipo de ajuda ou desconto. Uns 700 estavam abaixo do nível de renda familiar dos 40 mil dólares anuais. Nos últimos anos, em especial, diretores de admissão dos colleges de elite tem feito uma corrida por estudantes de baixa renda talentosos, estimulando-os a candidatar-se ao college. Isto tem aparecido em reportagens aqui e ali. Numa delas, por exemplo, aparece o levantamento dessa ofensiva de Harvard para os estudantes de renda abaixo dos 40 mil – eram 15 calouros, numa turma de uns 1600. Para esses 15, coisa importantíssima, a glória. No conjunto do sistema, claro que é alguma coisa – mas estamos longe de uma explicação para a popularização da escola superior. Nem há como ser diferente – uma escola privada não pode fazer o milagre de operar a fundo perdido. Quando se olha para a média efetivamente paga pelos estudantes, nas universidades privadas, depois da ajuda financeira, esse valor é, ainda assim, bem superior às universidades públicas. E sem dúvida muito superior aos community colleges. Isso em certa medida explica porque no monumental valor da divida estudantil (os empréstimos), a participação dos community colleges é pouco significativa. E porque as escolas mais caras tem adotado a combinação que Geiger chama de “high price-high aid”. Se somamos esse fato ao tamanho das instituições publicas, quando comparadas com as privadas, dá pra perceber que a massificação e barateamento do ensino superior se deve precisamente ao gasto público. Seja pelas dotações diretas para as escolas públicas, seja pelos enormes programas de bolsas, no sistema federal que o estudante acessa pela web, o Fafsa. Bolsas federais que vão para todo tipo de escola (publica, privada sem fins lucrativos ou mesmo com fins lucrativos). O lado menos agradável dessa equação é o crescimento monumental da dívida estudantil – em especial nas escolas privadas.
      3. Com relação ao perfil das universidades estaduais, não creio que sejam semelhantes nem às escolas privadas nem aos community colleges. Você talvez esteja se referindo a um aspecto que, sim, as aproxima, ou aproxima algumas delas, das escolas privadas de prestigio. Depois da II Guerra, sobretudo, um certo numero dessas estaduais se juntou ao pelotão de elite das universidades de pesquisa. Como? Dinheiro de pesquisa patrocinada – pelo complexo militar. O complexo industrial- militar é, de fato, industrial-militar-acadêmico. Um notável estudo de Geiger mostra essas universidades de pesquisa em detalhe – e do grupo de 99 instituições que eles examina, dois terços são publicas. Talvez também, com algum trabalho de análise, se pudesse mostrar que há certa convergência quando falamos do crescimento das funções adminsitrativas e dos salários dos altos cargos (reitores e diretores).
      Mas elas se distanciam das privadas em outros aspectos. E se distanciam, também, dos community colleges em outros. E entre as universidades públicas há muitas diferenças. No que diz respeito aos custos pros estudantes, as anuidades, não faz sentido identifica-las às privadas, como disse. Escolas privadas como Harvard não têm fins lucrativos, mas não são ‘fundo perdido’. Precisam pelo menos zerar custos. No meu livro comento estudos que comparam os custos operacionais dessas escolas e de onde vem. Vamos tirar da fantasia esta estória de filantropia privada sustentando escola. Nada a ver. Também não faz sentido no que diz respeito a equiparação quando olhamos a composição dos cursos – a proporção entre graduação, pós-graduação e escolas profissionais, por exemplo. As escolas privadas ‘focam’ e podem focar em cursos mais prestigiosos e rentáveis. As públicas simplesmente não podem fazer isso. Entre outras tantas diferenças.
      4. Sim, existem os liberal arts colleges, de 4 anos, alguns deles de notável prestigio, tão alto quanto as universidades top. E bem caros. São concentrados no lado leste do pais ou no meio oeste. E mais ainda, no nordeste do pais. Alias, seria melhor dizer Four-year colleges, porque vários deles não se resumem ao tradicional ‘liberl arts”. O velho Dartmouth, por exemplo oferece cursos de engenharia, administração, medicina. Williams and Mary também tem uma escola de Direito, de Educação. Alguns são Colleges eminentemente tecnológicos. São apenas exemplos da variedade, que vai bem ali do ‘liberal arts.. Ah, sim, vários desses 4-year colleges têm programas de pós-graduacao, mestrados e doutorados. Em geral são escolas pequenas, quando comparadas com Columbia, Stanford ou Harvard. Ou com as enormes universidades estaduais. Amherst, que você cita, deve ter hoje menos de 2 mil alunos. E a anuidade custa mais do que Harvard. Só a unidade Berkeley da Universidade da California tem uns 35 mil. Em Los Angeles, mais uns 40 mil. E por ai vai, nos seus vários campuses. A City University de NY tem 7 community colleges, distribuídos pelas cidades. Eles tem uns 100 mil alunos. Se a memoria não me trai (acho que não), um deles, o BMMC, no sul de Mannhatan, tem uns 20 mil. E aí entramos nos percentuais e seus labirintos.
      5. Mais uma vez uma palavra com relação aos percentuais de corpo discente, para cada tipo de escola, é preciso qualificar do que estamos falando. E de certo modo você tem razão: é preciso detalhar o que isso significa. É isso que faço no meu trabalho. Vou resumir a idéia, os dados estão no livro que estou terminando. Uma coisa é dizer qual é a proporção dos estudantes matriculados – de modo geral. O setor 2-anos tem uns 7 milhoes de estudantes, o de 4 anos tem uns 12. Ok. Quando se considera apenas o setor público (que de fato foi o responsável pela massificação e penetração do sistema entre os segmentos de renda mais baixa e minorias étcnicas), a proporção two-year é bem maior. Ocorre que os 19 milhoes totais incluem graduação, pós, escolas profissionais (direito, medicina, etc). Alem disso, escolas de 4 anos tendem a ter mais alunos matriculas, por suposto, do que escolas de dois anos. A proporção entre os níveis de ensino é fundamental. E no meu trabalho mostro dados que mostram como a proporção entre esses níveis é muito diferente nas publicas e privadas. Uma outra coisa ainda é falar do total de estudantes de graduação. Ai, a proporção das universidades publicas e dos community colleges públicos é massacrante. E o percentual dos two-year colleges é, sim, mais do que significativo, é enorme. Cresceu mais do que todos os segmentos desde a segunda metade dos anos 1960. E a coisa fica ainda mais complicada quando falamos dos calouros, dos ingressantes na graduação. O total de ingressantes, no Relatorio de 2011 (Digest) é de uns 3200 000; Ora, em 2year colleges = 1400 000. No setor público, o two-year é majoritário. Há notas metodológicas, nesse estudo, que mencionam que há instituições classificadas como 4-year pelo IPED e como 2-year pela Carnegie, porque oferecem a maior parte de seus cursos com diplomas de associate degree (dois anos). E só são computadas, também, as instituições com direito de acesso ao Titulo IV da lei de educação (recursos públicos). Alguns Black Colleges, por exemplo, ficam fora. E há um detalhe importante no sistema: esses números não contam um enorme contingente de ingressantes de community colleges que são os chamados non-degree, que se matriculam para obter um certificate, um grau ainda menor do que o diploma de dois anos (associate degree). Esses alunos, fundamentalmente classificados no que se chama de workforce development ou educação de adultos, não são, em geral, classificados como estudantes de nível superior, o que significa que muitas vezes a escola perde o direito de ‘contá-los’ para usufruir dos recursos como os do Ato de Educação Superior. A City University de N.York orgulha-se dos seus duzentos e tantos mil alunos degree – e também de mais ou menos igual numero de ‘non degree’! E eles estão predominantemente no seu sistema próprio de community colleges. Um outro complicador dos community colleges – há um belo contingente, maior ou menor, conforme a escola e a região, de estudantes que vivem numa espécie de limbo acadêmico. Estatisticamente… não são alunos matriculados no community college, mas no programa ‘remedial’ preparatório, não são estudantes de ensino médio nem do superior, estrita e estatisticamente falando. Eles cursam, às vezes por mais de um ano, disciplinas que ‘não contam’ no seu diploma – educação ‘remedial’, inglês, matemática, ciências. Ainda uma outra coisa complica a leitura das tabelas. Conto isso no meu livro em preparo. Como muita coisa, nos EUA, a educação depende muito da politica estadual e local. Alguns estados deram menos importância à criação de community colleges como instituições separadas. E neles as universidades estaduais criaram sua versão do 2-year college – campus específicos para oferta desses cursos de dois anos (com diploma correspondente) e permissão para transferência para outros cursos, de 4 anos. Esses estudantes são contados como alunos da universidade, não de um community college. Assim, é por isso que parece correto estimar que, por um desses vários pontos de entrada, mais da metade dos estudantes americanos começam sua educação superior pela open door do community college. Não quer dizer que continuem, claro. Nem que obtenham diplomas.
      É esse o contexto em que insisto, a ponto de me repetir. O CC é um elemento absolutamente fundamental para a massificação do ensino superior (muito mais, sem duvida, do que os liberal arts colleges). E são centrais para levar a educação superior para o andar de baixo da sociedade, coisa que os liberal arts college não poderiam fazer por um motivo muito simples: a renda média das famílias é insuficiente para sustentar o que eles custam.
      E outro aspetco importante na história dos CC é a democratização do acesso produzido pela mera descentralização, pela capilarização da oferta. Há mais de mil CCs – calcula-se que isso, somado à presença das universidades estaduais multi-campus, permite que um jovem americano tenha um ponto de acesso ao ensino superior a uns 50 km de sua casa, no máximo.
      E isso é ainda mais flagrante em alguns estados, em que há planos diretores e esquemas bem azeitados de articulação entre universidades e community colleges, facilitando a estratégia de começar na escola de dois anos e depois tentar o ‘transfer’ para ao escola de 4 anos (em alguns casos, sem que a escola de dois anos apareça no diploma final, um detalhe que alguns diretores de community colleges comentaram comigo, com certo descontentamento).
      Mais uma vez obrigado pelos seus atenciosos comentários. Embora deles discorde, como disse, deram-me oportunidade para desenvolver mais e tornar mais claros meus argumentos.

  2. Agradeço sua resposta! Alguns comentários referente aos seus pontos seguem.

    1 – De fato, extrair os dados de um sistema complexo é difícil. Não existe “o numero correto” que captura e descreve a realidade; e mesmo quando existe não é simples fazer a classificação do tipo de instituição.

    2 – Note que não discordo do fato de que as universidades de elite, são, desculpe a obviedade, de elite. O que não é correto é afirmar que as taxas de matrícula são a barreira de entrada para essas universidades. Yale e Harvard, por exemplo, praticam “need-blind admission”: o estudante é aceito sem considerar a possibilidade de pagar. Após a aceitação, a universidade cobra o que o estudante tem possibilidade de pagar, e arca com o resto dos custos, sem exigir que o aluno tome empréstimos.

    O difícil é entrar nessas universidades. Estudantes de famílias com maior poder aquisitivo têm todas as vantagens durante o estudo básico e o colégio, seja em escolas particulares, seja em escolas públicas de melhor qualidade, e especialmente devido à situação familiar.

    Note também que essas políticas são relativamente recentes e constantemente em evolução. Os estudos históricos não necessariamente refletem a política atual; e de fato as políticas de need-blind admission foram formuladas justamente para diminuir a iniquidade que os estudos apontaram.

    Quanto às fontes de renda, leio em http://finance.yale.edu/sites/default/files/FullReport2013.pdf
    que mais de ⅓ da receita de Yale vêm de rendas do fundo (“endowment”); uma fração um pouco maior de contratos de pesquisa (a maioria federais) e serviços médicos do hospital associado à escola de medicina; e menos de 10% são pagos pelos estudantes, incluindo matrícula, moradia, e alimentação – a conta que vai para estudantes daria o dobro, mas os descontos são de mais da metade desse total.

    Considerando que o fundo é formado por doações acumuladas e investidas ao longo dos anos, a ideia de que o financiamento das bolsas vem de doações voluntárias não é de forma alguma uma fantasia, ao menos não no caso das universidades mais endinheiradas.

    E vale a pena notar, como você indica, que o financiamento à pesquisa, nos Estados Unidos, vem na maior parte do governo federal – em programas de apoio à medicina e saúde, militares, e científicos, nessa ordem de importância – e em escala muito menos de empresas privadas. No Brasil muitas vezes se ouve que empresas privadas sustentam a pesquisa acadêmica nos EUA mas isso é falso.

    3 – Concordo, a classificação das escolas quanto a públicas ou privadas não reflete a realidade dos Estados Unidos, é um cacoete da visão brasileira. Há escolas estaduais de todos os tipos. Um bom exemplo é a California: o sistema das “University of California” é comparável às melhores privadas; o sistema das “California State Universities” é uma 2a linha, mais voltada ao ensino superior do que à pesquisa; e existem também os community colleges.

    A massificação vem exatamente da diversidade do sistema e das fontes de financiamento. Vale a pena notar que os estados têm contribuído cada vez menos para o ensino superior, e as universidade estaduais continuam tendo obrigações determinadas pela gerência pública apesar de terem que buscar a maior parte do financiamento de outras fontes. Na opinião dos acadêmicos isso é um desastre mas aparentemente é a preferência de políticos e eleitores.

    4 – Não consegui encontrar facilmente dados sobre o número de estudantes em 4-year colleges (separados das universidades). E minha área de pesquisa é engenharia elétrica, de modo que o contribuinte me exige que pesquise outras coisas 😉 O fato é que, independentemente dos números, os “liberal arts colleges” têm uma importância fundamental no sistema de ensino americano, pela influência que o conceito – inexistente no Brasil, é bom ressaltar – para todo o sistema de ensino superior.

    5 – Verdade, historicamente há diversas ondas de massificação crescente: os land-grant colleges no século 19, ampliação das universidades estaduais com apoio federal após a 2a guerra, depois o crescimento dos community colleges, e mais recentemente o aumento das escolas com fins lucrativos. Esse último fenômeno, é bom mencionar, com propriedades duvidosas, uma vez que resulta da diminuição do apoio dos estados e muitas vezes se dá através de escolas de qualidade variável.

    Interessante trabalho! Continuo sugerindo atenção aos pontos que apontei, porque o leitor brasileiro se confunde com facilidade quando quer entender outros países usando as classificações habituais no Brasil, que muitas vezes não se aplicam.

  3. O professor Pait faz algumas novas observações que vale comentar. Vou responder via site mesmo, não por e-mail. Acho que aqueles que se interessam pela pesquisa teriam interesse também nas nuances importantes que ele menciona. A proposito, este não é exatamente um blog, então isto é meio novidade aqui. Não faço posts periódicos, etc. É algo mais estático e preguiçoso, com o simples objetivo de ‘depositar’ resultados de pesquisa, publicações, etc. Mas agradeço aos “visitantes” que mandem comentários.

    Nos últimos anos, para algumas universidades top essas políticas de julgamento cego tem diminuído a ‘elitização’. Não sei se com tanto impacto assim, mas é uma reação. A julgar pelas informações da página de Harvard dedicada ao tema (Financial Aid), os efeitos ainda são reduzidos. A página indica o impacto da ajuda para as famílias por nível de renda. Não sei quanto a Yale, exatamente. Não tenho acompanhado esse movimento.
    Mas o ponto principal talvez seja o seguinte: talvez seja pouco realista equilibrar essa equação pela transformação das escolas de elite. Elas correm o risco de perder o que tem de bom e criar mais problemas para si mesmas. Talvez estejam respondendo a esse tipo de pressão, mas, se assim for, acho que a pressão estaria um pouco desfocada. O problema é o conjunto do sistema americano, que foi muito bem sucedido em muitos aspectos, mas criou alguns pontos cegos que tenta corrigir pragmaticamente. As inovações institucionais, desde os land-grant colleges, foram notáveis iniciativas nessa direção.
    Se a memória não me trai, as escolas privadas sem fins lucrativos respondem hoje por menos de 30% do total de estudantes de nível superior (graduação, escolas profissionais e pós-graduacao incluídas). Ocorre que a proporção de graduação, nelas, é bem menor do que nas escolas públicas. Elas investem pesado na pós-graduação e nas escolas profissionais, de prestigio. Elas são boas nisso. Então, para a graduação, elas têm um impacto menor do que o setor público.
    A expansão do sistema “para baixo” depende de outras iniciativas, não tanto da reforma das escolas top privadas. Pelo que sei, em todos os países mais desenvolvidos você tem um setor seletivo muito ‘elitizado’. Na França, por exemplo, a distância entre as grandes escolas e as universidades é flagrante. Acolhem um numero muito menor de estudantes e têm um orçamento per capita muito maior. A questão da ‘elitização’ tem pelo menos dois lados – um deles é a seletividade por conta da missão especifica desse tipo de escola (pegar os melhores, intelectualmente, e transformá-los em cientistas, por exemplo). O outro é a seleção pela renda ou legado – a admissão de filhos de ex-alunos ricos que doam para a universidade, de alunos que podem pagar a anuidade ‘cheia’, sem descontos, etc. No mundo em que vivemos, todo sistema nacional tem que ter o primeiro tipo de ‘elitização’, não o segundo. Mas esse segundo tem a ver com a forma da escola operar e, também, com o sistema social mais amplo – no caso americano, uma sociedade cada vez mais polarizada, desigual. Dentro desse quadro, a diversificação institucional é uma marca inteligente do sistema americano. E a capilarização é outra, a flexibilidade da oferta, do ponto de vista geográfico. Repare, essas escolas de que falamos, as top privadas, são muito concentradas no nordeste. Alguns casos (como Chicago e Stanford) estão fora dessa mancha. Mal comparando, é como falar do Brasil centrando o foco no estado de S.Paulo, ou a cidade do Rio.

    Continua sendo difícil, mesmo com essas reformas, passar pela porta de Harvard. Mas, como você menciona, mais difícil ainda é chegar nessa porta, por conta de múltiplos fatores, qualidade do ensino médio, a high school, situação familiar, etc. Ouvi uma palestra da secretaria de educação do estado de NY em que ela dizia que um número grande (acho que 80%!) dos concluintes da high school estavam despreparados para um college.
    E outro fator é relevante para a ampliação do acesso: a capilarização, Esse também é um traço inteligente do sistema americano que nos não conseguimos replicar aqui. Politicas pragmáticas e incrementais foram povoando o país de pontos de acesso. Criação de escolas através da doação de terras, por exemplo. Até algumas instituições privadas famosas foram beneficiadas por essas doações, que se juntaram, precisamente, a seu “endowment”. Cornell, Stanford, MIT ou Rutgers, e assim por diante. Depois dos land-grant, a politica das bolsas para jovens desempregados, nos anos 30, ou para os veteranos, no pós-guerra (alias, nos diferentes pós-guerra). Meu trabalho insiste numa dessas iniciativas, os community colleges.
    A capilarização é decisiva para o acesso. Não é apenas caro pagar Harvard. Estudar em Harvard, para quem não mora em Boston ou Cambridge, significa sair da casa da família, deixar um eventual emprego de meio período na sua cidade, enfrentar novos gastos. A proliferação de CCs transformou realidades como essas. Olhar o mapa desses pontos é revelador. Em alguns estados, como a California, é uma epifania. Nós engatinhamos nessa área. O problema não é “estufar” o Butantã ou Barão Geraldo, isso tem limite e, a partir de certo ponto, deseconomias. A questão é compor uma rede capilarizada. E diversificada, idéia ainda mais difícil de ‘vender’

    O financiamento das escolas também é diversificado nos EUA. Não sei bem a situação particular de Yale, mas hoje, consolidando um conjunto de dados mais amplos, para todo o país, dois autores americanos montaram um quadro dessas fontes – Weisbrod, Burton A., Jeffrey P. Ballou & Evelin D. Asch – Mission and Money – Understanding the University, Cambridge University Press, NY, 2008.
    Eles mostram que o orçamento corrente das instituições 4-year sem fins lucrativos tem mais de 30% de seu orçamento vinda do setor publico (dotações e repasses, bolsas, contratos, etc). E a renda originada pelos endowments ou doações privadas é parte menor. A participação dos estudantes varia muito, mas na media é de uns 32%. Como disse, parte do patrimônio de algumas dessas escolas é ainda herdeira, lá longe, da doação de terras. E outra parte foi construída… com a fabulosa chuva de dinheiro da pesquisa militar (e, depois, da pesquisa biomédica financiada pelos institutos Nacionais de Saúde). Em alguns casos, com efeitos engraçados e inesperados. O laboratório onde ‘nasceu’ Chomsky foi originado de projetos militares de inteligência artificial.
    O foco de minha pesquisa não era esse, o sistema em seu desenho geral, muito menos as universidades de pesquisa e sua dependência do gasto público, o qual, alias, não alimentou apenas a pesquisa acadêmica, mas, durante muito tempo, a industrial também, incluindo o lado D da R&D. Sim, tem razão, essa é confusão que se propagou no Brasil, sobre a sustentação privada da pesquisa.
    Outra nuance importante que você aponta é essa da diversidade dentro das próprias escolas públicas. Na California esse desenho em três níveis se traduziu num plano diretor. Mas não ficou por lá, foi mais ou menos replicado em vários estados.
    A diversidade no setor privado também é grande. Acho que você não vai achar os tais dados precisos sobre os collegges 4-year isolados, não integrados em universidades. Só que os ”’liberal arts colleges”, em sentido estrito, são hoje um subconjunto desse conjunto maior. Uma porção desses colleges foi diversificando sua oferta, incluindo diplomas voltados para ciências ou profissões. Alguns até são parcialmente 5-year ou 6-year, por conta de suas escolas de medicina e direito. O tradicional liberal arts, talvez mais próximo do modelo colonial e inglês, virou uma parte desse universo. Não sei se é parte maior ou menor, não explorei isso.
    Uma ultima nuance é essa do setor for-profit, as escolas criadas pra serem lucrativas. Não eram mais do que uns 2% dos estudantes até o final do século XX. Mas hoje devem chegar aos 9%. São mesmo de qualidade variável. O que esse setor tem de interessante, me parece, é que andou inventando uns modos de oferta (cursos modulares, instalações descentralizadas e improvisadas) que sacudiram algumas escolas tradicionais. Fizeram algumas inovações meio ‘mercadológicas’ e duvidosas, mas também desafiaram a inércia das escolas tradicionais. Por incrível que pareça isso pode ter efeitos bons, através de caminhos menos bons.

    É mesmo relevante mostrar os equívocos e confusões que se propagam aqui, até nas denominações e categorias classificatórias. Por exemplo, o sentido equivoco da expressão ‘universidade privada’, sem mencionar o anexo “sem fins lucrativos” e sua peculiar forma de organização e gestão. Ou a mera identidade entre ensino superior e universidade. Costumo dizer que ensino superior não ocorre apenas em universidades e universidades não são apenas ensino superior. Mas essa confusão é renitente. Outro equivoco é a história do financiamento privado da educação e da pesquisa (inclusive da pesquisa aplicada). Tento mostrar algumas dessas confusões no meu livro. Algumas.
    Enfim, como disse, o objetivo de minha pesquisa foi mais limitado – community colleges. Mas certamente isso me deu oportunidade para explorar esse conjunto mais amplo, que vai aparecer no livro.

  4. Talvez discordemos em vários pontos e também na visão geral, mas o diálogo está avençando.

    De fato qualquer sistema de ensino superior acaba tendo características elitistas. Historicamente a força do sistema americano é oferecer toda uma gama de oportunidades, o que significa que ninguém fica a priori excluído. É diferente do Brasil onde temos o conceito “não passou no vestibular”. O sujeito concluiu o colégio, quer continuar estudando, mas não pode porque alguém ficou na frente na classificação. Ou da França, que tem 2 sistemas completamente diferentes em prestígio, recursos, e apoio da sociedade. No Brasil as coisas até estão mudando com o crescimento das escolas particulares e federais, vamos esperar uns anos para ver onde dá, se resulta num sistema menos fechado.

    Mas voltando aos EUA as universidades estaduais realmente estão perdendo muito do apoio público, o que esvazia justamente a parte central do sistema, as escolas de bom nível e custos baixos. É essa a ideologia dos republicanos que governam muitos estados, e os resultados são ruins para o país, exatamente como previsto.

    Acho que sua análise subestima a importância das escolas privadas menos famosas. Há universidades privadas de qualidade espalhadas pelo Sul do país (Duke, Vanderbilt, Rice, Emory…), e muitos liberal arts colleges no Meio Oeste (Oberlin, Kenyon, Carleton…), por exemplo, que são uma parte fundamental da diversidade do sistema. A concentração geográfica é menor do que você descreve.

    A questão de sair de casa, pagar aluguel, e abandonar emprego de meio período realmente é importante para o estudante brasileiro, mas não tem muita relevância no caso de um americano que pensa em estudar em Harvard. Um motivo é o custo alto do estudo, maior que as despesas de moradia. Outro são as bolsas. E de qualquer forma os costumes são que o estudante universitário more na universidade ou imediações, e não com a família. Adicionalmente, existem empregos em tempo parcial tipo nas próprias universidades, e empréstimos que são pagos após a formatura. É diferente do Brasil, onde o estudante trabalha o dia todo, mora com a família, e faz curso noturno, estudando no horário em que sobrar tempo. Essa parte do argumento não corresponde à realidade americana.

    Quanto aos community colleges, um problema é a evasão. Isso lembra o Brasil – os cursos onde o ingresso é menos competitivo têm muita evasão. Motivos semelhantes, talvez: falta de preparo, estímulo, interesse, apoio da sociedade, possibilidade de recompensa financeira… Nas escolas mais concorridas a evasão é muito baixa. Não tenho noção de como seria a evasão na Europa.

    Há uma iniciativa do governador (republicano!) do Tennessee para pagar o community college de todos que terminarem colégio no estado.

    • De fato, aí estão alguns pontos importantes a desenvolver:
      – diferentes taxas de evasão
      – cartografia mais detalhada de instituições e matrículas
      – proporções entre estudantes full-time/part-time, residente/commuter
      – comparação do sistema americano com outros países.
      Este último, aliás, é parte de projeto que estou desenhando no momento. Mas ainda vai demorar…

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